sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Leituras de Rosa - As formas do falso -Walnice Nogueira Galvão 1972 - parte 7 - Capítulo 6 - A linguagem e a fala

Capítulo 6: A linguagem e a fala

'- Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.'

"A situação de narrar que Guimarães Rosa propõe tira sua verossimilhança de tantas outras a que estamos acostumados: o depoimento de um velho jagunço, anotado pelo entrevistador, antes, e hoje gravado em fita; aparece constantemente em livros, jornais e revistas." (69)

"O travessão que precede a primeira palavra do romance, e que só se fecha no ponto final da última página, instaura o monólogo como um dos lados de um (69)
diálogo; mas o diálogo que se contém nele é suposto. Nenhuma só vez o monólogo é interrompido para dar lugar ao interlocutor. (...) Colocam o intelocutor dentro do monólogo: as alusões diretas que o narrador faz a ele - 'Mas, o senhor sério tenciona devassar a raso este mar de territórios, para sortimento de conferir o que existe?'; as 'respostas' que têm a pergunta sugerida pela forma da frase - 'Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores.'; as perguntas que o narrador faz a seu ouvinte, sugerindo a ocorrência de uma resposta pela continuação da frase - 'Por que o Governo não cuida? Ah, eu sei que não é possível. Não me assente o senhor por beócio'. Assim vai se compondo a figura de um intelocutor que é hábil inquiridor, simpatizante e letrado." (70)

"É o monólogo, contendo um diálogo pela alusão a um interlocutor, que determina a opção pela fala. As frases interrogativas e exclamativas, as interjeições, os expletivos, as frases truncadas e entrecortadas, definem o discurso que se dá como fala. A fala é também o grande unificador linguístico; cancela a multiplicação de recursos narrativos - variação de pessoa do narrador, cartas, diálogos, outros monólogos; até mesmo as personagens do enredo falam pela boca de Riobaldo. É o fluxo da fala que impõe um ritmo próprio às sequências verbais" (70)

"Mas é preciso lembrar que se trata de 'fala' e não de fala. A magnífica oralidade do discurso é uma oralidade ficta, criada a partir de modelos orais mediante a palavra escrita. Por isso mesmo, é impossível ler o 'depoimento' de Riobaldo da maneira como se lê o depoimento de um velho jagunço. Já foi necessário a Guimarães Rosa fazer de seu narrador-personagem um letrado, para fundamentar, no nível da verossimilhança, uma experiência mental (70)
tão rica e que tão bem se expressa verbalmente. Afinal, o autor do depoimento é Guimarães Rosa. O 'depoimento' transcende inteiramente a situação concreta do narrador-personagem e mesmo a possibilidade de tal discurso partir dele." (71)

"Por um lado, subjaz a esse discurso um parentesco muito grande com o falar sertanejo (ou falares sertanejos); o leitor com ele familiarizado nota-o imediatamente." (71)

"Acontece, todavia, que Guimarães Rosa explora ao máximo as possibilidades do modelo, mediante este salto definitivo que representa a escolha do narrador-personagem. Tudo, então, se torna convincente como linguagem. Fica eliminado o contraste canhestro, tão praticado pela prosa regionalista, entre o diálogo que reproduz o falar e o não-diálogo que reproduz a prática letrada do autor." (71)

"A isso, Guimarães Rosa escapa colocando a totalidade do romance num só fluxo de fala." (72)

"Mas, por outro lado, o discurso de Grande Sertão: Veredas escapa também dos limites do falar sertanejo. É bem verdade que existe em seu vocabulário um farto aproveitamento de regionalismos, e não só sertanejos;" Palavras que parecem estranhas e inventadas ('vuvú vavavá de conversa ruim') estão consignadas em dicionários: (72)
vuvu é um regionalismo popular de Minas Gerais significando briga, conflito, confusão e vavavá é brasileirismo para barulho de vozes, algazarra, agitação, alvoroço, atropelo, azáfama. (73)

Também aproveita extensamente arcaísmos, característicos da língua brasileira do sertão, que às vezes parecem inventados: 'que joliz havia de ser era se meter um balaçõ no baixo da testa do Hermógenes', em que joliz parece uma combinação do francês joli + feliz mas é um arcaísmo registrado em dicionário como alegre, amável. (73)

"Mas não é menos verdade que há também palavras inventadas pelo autor, embora muito menos do que supõe o leitor desavisado, e estrangeirismos da autoria dele, tanto de línguas vivas como de línguas mortas." (73) P.ex. esmarte.

Usa da liberdade proporcionada pela língua de alterar a afixação e de fazer novas derivações, o que ocorre em outros textos e também na vida real, p.ex. "No cearense Dona Guidinha do Poço ocorrem sem estranheza talentuda, musculenta, folhiço, falaço, bondadosa, tristor, acelêro, etc." (73)

"Tudo isso aponta para um escritor que ama as palavras, que é leitor de dicionários, e que se move num universo linguístico - contemporâneo e passado - muito mais amplo do que aquele a que estamos habituados." (73)

"Guimarães Rosa tem portanto, um pé na linguagem do sertão e o outro pé na linguagem do mundo. Se, de um lado, explora as possibilidades do falar sertanejo, de outro explora campos linguísticos eruditos que nada têm a ver com o sertão. Se, de um lado, a matéria que põe em jogo é a matéria do sertão, de outro lado extrai as consequências máximas do imaginário do sertão; assim, coisa inédita na literatura brasileira, transforma seu romance numa demanda; e permite que as andanças dos jagunços ganhem visos de proezas de cavaleiros andantes, de luta do bem contra o mal. Se, de um lado, seu romance é o mais profundo e mais completo estudo até hoje feito sobre a plebe rural brasileira, por outro lado também é a mais profunda e mais completa idealização da mesma plebe. Se, por um lado, o falar sertanejo permite e justifica que o livro se arme como uma discussão metafísica sobre Deus e o Diabo, aceita-se esta discussão porque esses são conceitos que estão ao alcance do narrador-personagem para efetuar a tentativa de demarcar os limites entre a liberdade humana e a necessidade imposta pelo sistema de dominação. Mas, por outro lado, o contingente erudito da linguagem usada pelo escritor permite e justifica que Deus e o Diabo sejam, ao fim e ao cabo, concepções muito mais requintadas e que derivam tanto de Heráclito como do budismo." (74)

"A inegável sedução da linguagem carrega nela, a um só tempo, o sentir empático do escritor face ao homem do sertão e seu viver, e uma vasta experiência na tradição letrada que o escritor não põe em dúvida. Seguramente, o pé esquerdo de Guimarães Rosa está solidamente fincado no sertão; mas não menos seguramente, seu pé direito está alhures." (74)

Bibliografia:

GALVÃO, Walnice Nogueira.
      (1972) As formas do falso. Um estudo sobre a ambiguidade no Grande Sertão: Veredas. São Paulo: Editora Perspectiva.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Leituras de Rosa - As formas do falso -Walnice Nogueira Galvão 1972 - parte 6 - Capítulo 5 - A matéria - matéria e matéria imaginária

Capítulo 5: A matéria: matéria e matéria imaginada

'Quando conheceu Joca Ramiro, então achou outra esperança maior: para ele, Joca Ramiro era único homem, par-de-frança, capaz de tomar conta deste sertão nosso, mandando por lei, de sobregoverno. Fato que Joca Ramiro também igualmente saía por justiça e alta política, mas só em favor de amigos perseguidos; e sempre conservava seus bons haveres.' (GSV)

"O 'par-de-frança' ao lado do 'sertão nosso', na mesma frase, mostram o livre trânsito entre a matéria e a matéria imaginária neste romance." (51)

"A presença de elementos do imaginário da cavalaria no Grande Sertão: Veredas, já assinalada e examinada nos ensaios pioneiros de Cavalcânti Proença e Antonio Candido, não é apenas algo posposto com o objetivo de dignificar a matéria e operar uma contribuição a mais para a mitologia do cangaço. A preocupação de entender a razão de ser dessa presença levou-me à identificação de uma verdadeira 'célula ideológica', que passo a descrever." (52)

"Como passo inicial, importa distinguir dois níveis. O primeiro é o da tradição letrada, que, em estudos, crônica, história e ficção, pratica a analogia entre jagunço e cavaleiro andante, latifúndio e feudo, coronel e senhor feudal, sertão e mundo medieval. Essa é uma velha tradição em nossas letras, que força uma semelhança nobilitadora e minimiza a necessidade de estudar o fenômeno naquilo que tem de específico." (52)

P.ex. Euclides da Cunha, Pedro Calmon, Gustavo Barroso, Wilson Lins, Luís da Câmara Cascudo (52-56)
e também ficcionistas como Franklin Távora, que chama o Cabeleira de 'Cid ou Robin Hood pernambucano', Afonso Arinos (Os Jagunços) (56)
Manoel Oliveira Paiva (Dona Guidinha do Poço) (57)

"Estes poucos exemplos literários, todos ainda do século XIX e do início das manifestações regionalistas, que culminarão no romance de 30, servem para dar uma ideia da questão (...) esta representação atravessa de ponta a ponta a ficção regionalista. A obra de José Lins do Rego e de Jorge Amado está inçada de casos semelhantes. Quanto a Graciliano Ramos, lembro apenas que Vidas Secas, em sua espantosa desideologização da linguagem e em sua pesquisa da posição ontológica do sertanejo pobre no mundo contemporâneo, nem uma só vez incorre nisso." (57)

"Outro nível, bem diverso, é o da tradição popular sertaneja. Não que este nível seja inteiramente desligado do outro - afinal, os valores dominantes são os valores da classe dominante -; mas é compreensível e aceitável por ser o único modelo histórico de que dispõe a plebe rural, que não tem história, para mais ou menos objetivar o seu destino." (57)

"O acontecido ontem e aqui ombreia com o acontecido em eras remotas e bem longe. Na tradição oral dos causos e (57)
das cantigas, bem como nos romances de cordel, é a mente letrada que vai executar as operações da razão, definindo, separando, constituindo tipos, no seio de um conjunto onde o cavaleiro andante, o cangaceiro, a donzela guerreira, a donzela sábia, figuras da história do Brasil, o animal, o Diabo, são todos personagens de um só universo." (58)

"o texto que mais se alastrou pelo sertão e mais vida e popularidade teve, foi a História do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França - Seguida da de Bernardo del Carpio que Venceu em Batalha aos Doze Pares de França. (...) Um exemplar de tal livro, que nada tem de raro ainda hoje, mostra, no descuido de sua edição, na qual não se pode ter confiança, na modernização da ortografia, na falta de informações (58)
bibliográficas que se esperariam encontrar no volume, na vulgaridade da capa, um destino que transcende o círculo dos letrados." (59)

"Trata-se de uma novela de cavalaria, em prosa, a que Luís da Cãmara Cascudo assim se refere: 'era o grande livro de História para as populações do interior'." (59)

Seg. Cascudo haveria um texto francês (Conquêtes du grand Charlemagne) de 1485, traduzido em Espanha em 1525, onde tivera grande êxito bem como em Portugal. A forma que chega no Brasil, constando de duas partes, veio a luz em Portugal em 1745 (a primeira parte foi publicada antes). (59)

"Esse livro tem sido a fonte inexaurível de inspiração para os cantadores sertanejos. Contando com um número imenso de episódios em seu vultoso volume, deu também origem a uma imensa cópia de cantigas em verso, na arcaizante forma tradicional. Foi esse livro, - os episódios avulsos narrados oralmente e assim passando de geração a geração, as cantigas que dele se originaram, e mais tarde os romances de cordel impressos a partir delas - que alimentou, formou e tornou-se parte do imaginário do sertão." (59)

"Hugo de Carvalho Ramos [no seu Tropas e Boiadas, de 1917] generaliza a presença do livro, falando das 'aventuras dos doze pares de França, livro tido em grande estima no sertão, cuja leitura, nos serões solarengos das fazendas do interior, era feita em torno do lampião de querosene à família atenta'" (60)

Gustavo Barroso diz que quando o dono leu o livro sobre Carlos Magno o cachorro se chama Ferrabraz ou Roldão e em nota de rodapé: 'É um livro de fancaria que todo o sertanejo conhece por ter lido ou de referências.' (60)

Na Guerra do Contestado "o grupo de elite dirigente dos insurretos intitulava-se os pares-de-França; e, em sua compreensão ao pé da letra da velha expressão medieval, eles eram vinte e quatro, e não doze." (61)

"Por sua vez, o Grande Sertão: Veredas, encampando o sertão, encampa também o imaginário do sertão. Nada mais verossímil que um jagunço, ademais um jagunço parcialmente letrado, narrando sua vida, a ela se refira em termos de novela de cavalaria. Afinal, esse é o imaginário de seu convívio." (61)

"O mundo idealizado da cavalaria faz parte indissolúvel da matéria tratada no romance. Não entra de fora, mas por dentro, por via da experiência do narrador-personagem. Tanto assim é que Riobaldo só se utiliza, ao longo do livro todo, de duas personagens literárias para fazer comparações, e ambas do mesmo texto. ele conta que leu Senclér das Ilhas e nunca menciona a História de Carlos Magno e dos Doze Pares de França; mas é deste último, e relacionados entre si, que saem o Almirante Balão com que compara Ricardão e Gui de Borgonha, com quem se compara. A matéria imaginária é aquela que está entranhada na própria matéria, contida pelos limites desta." (61)

"Por outro lado, é preciso lembrar também que aquilo que o senso comum nos insinua quando ouvimos falar em cavaleiro andante é apenas uma visão idealizada e moderna; imagem que reúne e acentua alguns traços éticos - pureza, honra, lealdade, fidelidade, decência etc. - está bem longe, já não direi da sua realidade histórica, mas dos próprios textos da novela de cavalaria. E nisto, (61)
em sua terrível crueza e impiedade, a novela de cavalaria está bem mais próxima do Grande Sertão: Veredas do que o leitor moderno poderia supor." (62)

"Quanto à História de Carlos Magno e dos Doze Pares de França, nessa mesma versão que corre o sertão, baste um exemplo. A Princesa Floripes, personagem feminina central da primeira parte, amada de Gui de Borgonha e filha do inimigo Almirante Balão, instiga Carlos Magno a (62)
matar o pai dela, feito prisioneiro, porque este se recusa à conversão; o que é de fato feito em seguida." (63)

"Grande Sertão: Veredas não é menos cru, com suas traições, torturas, estupros, assassínios, sadismos; mas também não é menos idealizado, em suas lealdades, amores, sentimentos de honra e outros belos sentimentos." (63)

Guimarães evita datar o enredo, ao falar, por exemplo, que Diadorim nascera 'Em um 11 de setembro da era de 1800 e tantos...', mas pelo menos permite datar aproximadamente o presente da narração: "Em meio às reminiscências avulsas e misturadas, o narrador diz: 'Os revoltosos depois passaram por aqui, soldados de Prestes, vinham de Goiás, reclamavam posse de todos os animais de sela' (1924-7)" (63)

"Os limites máximos e mínimos, em toda a sua deliberada imprecisão, demarcam contudo o contorno da República Velha." (63)
Inclusive porque se fala em capital do Estado e não da Província e Zé Bebelo fechava suas cartas com 'Ordem e Progresso, viva a Paz e a Constituição da Lei!'. (64)

"Mas, muito mais importante que as datas, jamais claras, e mérito de grande escritor, é a encarnação em personagens de romance do próprio processo político de consolidação nacional levado a cabo em sua última parte pela República Velha, e de que a ditadura Vargas marca o termo. Zé Bebelo desempenha o papel histórico do princípio centralizador e republicano, em oposição ao princípio federativo e localista representado pelos coronéis - Joca Ramiro e seus pares - com seus bandos privados." (64)

"Zé Bebelo é o homem da Ordem - 'Sei seja de se anuir que sempre haja vergonheira de jagunços, a sobre-corja? Deixa, que, daqui a uns meses, neste nosso Norte não se vai ver mais um qualquer chefe encomendar para as eleições as turmas de sacripantes, desentrando da justiça, só para tudo destruírem, do civilizado e do legal!' - e do Progresso: 'Dizendo que, depois, estável que abolisse o jaguncismo, e deputado fosse, então reluzia perfeito o Norte, botando pontes, baseando fábricas, remediando a saúde de todos, preenchendo a pobreza, estreando mil escolas.'" (64)

"Embora pense em seus interesses particulares e tenha um olho no congresso, fala sempre nos interesses da nação: 'Agora, temos de render este serviço à pátria - tudo é nacional!' E é a única personagem deste livro capaz de raciocinar não em termos de tradição e alianças privadas de dominação, mas em termos de república e de canais democráticos." (64)

"Os atributos pessoais de Zé Bebelo representam a modernidade, no contexto histórico de República Velha do romance; são eles a inteligência, o desejo de instruir-se, a visão nacional. Mas, também ele ambíguo, comporta forte contingente de atributos pessoais tradicionais: a valentia em primeiro lugar, a sede de poder pessoal, a (64)
utilização dos recursos habituais para cumprir seus intentos - usa jagunços para acabar com os jagunços. Rende-se afinal à lei do sertão, assumindo a chefia do próprio bando que combatera; e isso, para levar avante uma missão de vingança particular sem qualquer 'propósito' nacional. Perdeu a parada histórica; só lhe restava ou morrer pelas armas - à maneira tradicional - ou degradar-se em negociante, que é o que lhe acontece; ao menos, este fim implica uma etapa histórica mais avançada." (65)

"É por tudo isso que Zé Bebelo, figura tão marcante, tem muito mais tiques pessoais e traços distintivos do que os demais chefes que aparecem no romance. Ele pode menos resvalar para o plano mítico que os demais, sempre apresentados de maneira nebulosa e grandiosa. Não lhe é possível provocar a reverência do leitor - nem do narrador - com seus 'Maximé!', seus xingamentos, seu desejo de ser deputado, seu falatório incessante, seu apito. É figura sem a dignidade cavaleiresca e mítica de Medeiro Vaz e Joca Ramiro, por exemplo; por isso mesmo, tão mais humana e simpática." (65)

"Não é por coincidência que Zé Bebelo é aliado do governo, armado por ele, financiado por ele: é o princípio centralizador, respaldado pelo centro. Os outros chefes, Joca Ramiro inclusive, fazem parte da habitual aliança privada de dominação, eventualmente - e é este o caso do enredo deste romance - em oposição ao governo central. Todos eles são poderosos fazendeiros; e sua motivação política e privada é várias vezes mencionada no texto." (65)

"O único que escapa, não às origens de classe, mas a essa motivação, é Medeiro Vaz, este sim saído diretamente do plano dos ideais para o plano do rigor histórico deste romance." Afinal, Medeiro Vaz abandona posses e riquezas, põe fogo na própria fazenda para perseguir o dever de implantar a justiça em um sertão onde havia banhos de sangue. (65)
Medeiro Vaz "entra na dimensão daquilo que, depurado pelos séculos e pelo desconhecimento, formando uma espécie de Idade de Ouro moral localizada no passado, associou-se progressivamente ao anseio por ideais éticos mais altos e mais abstratos, longe da esfera dos negócios. Medeiro Vaz vem a ser o único cavaleiro andante (versão moderna) deste romance, sem um deslize, sem uma motivação menor, nem o poder, nem o interesse privado, nem a política, nem a aliança de dominação." (66)

"Alguma vez terá uma personagem de ficção saído para impor a justiça, com verossimilhança e sem ridículo, a partir de Dom Quixote? O próprio narrador acentua, prudentemente, que dessa raça de homens não existem mais." (66)

"Voltando à História: as crônicas do sertão, e particularmente da região do São Francisco, fornecem muito material ao escritor. Seja nos resumos que faz, citando nomes e topônimos, das proezas sangrentas dos coronéis daquela zona; proezas que cobriram o Império e a República Velha, e das quais o enredo do livro é um desenvolvimento. Seja, e isto sim muito mais importante, no aproveitamento de padrões correntes de vária natureza, ligados à jagunçagem, mas que não são cópia e sim incorporação imposta pelo compromisso do romance com a realidade. No sertão como no Grande Sertão: Veredas, é costume chamar os chefiados pelo coletivo derivado do nome do chefe - os ramiros, os medeiro-vazes, os zé-bebelos" (...) "A renomação do jagunço é habitual" e por vezes é alusão à excelência do tiro (66)
como no caso de Lampeão (quando atirava tudo clareava em volta) e de Cerzidor, Tatarana e Urutu Branco, codinomes de Riobaldo. O Liso do Sussuarão é chamado de um raso, o que lembra o Raso da Catarina "deserto inóspito e temido na Bahia, tradicional esconderijo de jagunços, onde Lampeão passou muito tempo com seu bando a fugir da perseguição. Até mesmo o zurrar do jumento como sinal combinado de ordens em batalha está registrado nas crônicas. E mulheres-jagunço, houve-as; mas Diadorim lembra mais a donzela guerreira dos velhos romances portugueses. Finalmente, neste rol sumário, assinalo que a lenda do pacto com o Diabo e do corpo fechado é uma das mais caras tradições do sertão e se aplicou a todos os jagunços famosos." (67)

"O sertão comparece, neste romance, como o substrato que fundamenta a fabulação ficcional. A partir daí, e desenvolvendo os caminhos possíveis, o escritor chega até a vislumbrar, receoso, um rumo de transformação assustador. Em bela página, que suponho única no romance brasileiro, Guimarães Rosa constrói uma visão apocalíptica com as virtualidades da miséria. Partindo do contato com os catrumanos, estágio mais baixo de vida humana que os jagunços encontram, mesmo num meio onde predominam os 'mínimos vitais', Riobaldo começa a refletir sobre o ponto a que poderia chegar o miserável se a ordem das coisas fosse rompida. Diz então: 'De homem que não possui nenhum poder nenhum, dinheiro nenhum, o senhor tenha todo medo!' Intui que a miséria excessiva está aquém de qualquer possibilidade de convivência, de qualquer padrão moral, de qualquer romantização: ela é feia, suja, perigosa. Sente a ânsia do miserável pela posse, pelo gozo imediato, mesmo ao preço da destruição total. E a partir daí desenrola sua visão, que lembra a das maltas assoladoras dos fatos franceses de 1789: 'E de repente aqueles homens podiam ser montão, montoeira, aos milhares mís e centos milhentos, vinham se desentocando o formando, do brenhal, enchiam os caminhos todos, tomavam conta das cidades. Como é que iam saber ter poder de serem bons, com regra e conformidade, mesmo que quisessem ser? Nem achavam capacidade disso. Haviam de querer (67)
usufruir depressa de todas as coisas boas que vissem, haviam de uivar e desatinar. Ah, e bebiam, seguro que bebiam s cachaças inteiras de Januária. E pegavam as mulheres, e puxavam para as ruas, com pouco nem se tinha mais ruas, nem roupinhas de meninos, nem casas. Era preciso de mandar tocar depressa os sinos das igrejas, implorando de Deus o socorro. E adiantava? Onde é que os moradores iam achar grotas e fundões para se esconderem - Deus me diga?' Este quadro fantasmagórico e tremendo mostra a plebe rural desencadeada, monstro coletivo que avança para tomar tudo o que lhe foi negado por séculos de miséria e opressão. O horror da visão leva o narrador a abstrair os conteúdos dela, para com eles construir uma alegoria negativa: 'Nem me diga o senhor que não - aí foi que eu pensei o inferno feio deste mundo: que nele não se pode ver a força carregando nas costas a justiça, e o alto poder existindo só para os braços da maior bondade.' " (68)

Bibliografia:

GALVÃO, Walnice Nogueira.
      (1972) As formas do falso. Um estudo sobre a ambiguidade no Grande Sertão: Veredas. São Paulo: Editora Perspectiva.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Leituras de Rosa - As formas do falso -Walnice Nogueira Galvão 1972 - parte 5 - Capítulo 4 - O inútil utilizado

Capítulo 4: O inútil utilizado

'Jagunço é isso. Jagunço não se escabreia com perda nem derrota - quase que tudo para ele é o igual. Nunca vi. Para ele a vida já está assentada: comer, beber, apreciar mulher, brigar, e o fim final' (GSV)

"Livre, e por isso mesmo dependente. Sem ter nada de seu, e por isso mesmo servidor pessoal de quem tem. Inconsciente de seu destino, e por isso mesmo tendo seu destino totalmente determinado por outrem. Sem causas a defender, e por isso mesmo usado para defender causas (41)
alheias. Avulso e móvel, e por isso mesmo chefiado autoritariamente e fixado em sua posição de instrumento. Posto em disponibilidade pela organização econômica, que não necessita de sua força de trabalho, e por isso mesmo encontrando quem dele disponha, para outras tarefas que não as da produção. Tal é a condição dessa imensa massa de sujeitos disponíveis em suas 'existências avulsas', que estavam aí para serem usados, e que o foram, ao longo de toda a história brasileira." (42)

"esta prestação de serviços pode ir até o crime, que nada mais é do que uma das muitas obrigações devidas ao protetor" (42)

"As peculiaridades do povoamento - feito em unidades econômicas constituídas em propriedades rurais - resultaram na formação de pequenos núcleos, isolados uns dos outros, onde a autoridade suprema era o senhor." (...) "os objetivos defensivos pouco se distinguem dos ofensivos, pois questões de limites e aguadas entre os vizinhos levam a guerras prolongadas, depredações em fazendas alheias, represálias etc. (42) Os fazendeiros, por sua vez, faziam alianças, em geral baseadas no parentesco, com outros fazendeiros para defesa e/ou ataque. (42-3)

Quando havia uma aliança entre senhores, os jagunços ainda continuavam sendo liderados por seu chefe, não havia fusão e sim superposição das tropas, cada um obedecia ao seu capitão. "Cada chefe - fazendeiro e home de posses - entra com um contingente de homens dele, no que Riobaldo vê um arranjo semelhante a 'governo de um bando de bichos'  "(43)

"Cada fazendeiro com seus chefiados, em guerra privada: a unidade econômica mínima é também a unidade mínima do poder político no Brasil rural. Célula econômica com sua própria força armada, vai desembocar necessariamente na disputa do poder político. Na passagem da colônia para país independente, com a criação formal de um quadro de instituições para o exercício eleitoral-representativo do poder político, tais células entraram intactas nesse quadro. Não houve alteração do sistema de poder efetivo, houve apenas um ajustamento dele aos quadros formais então criados. Cada célula significa um dado número de votos; da aliança entre os senhores locais é que resulta, inflexivelmente, a eleição do candidato escolhido em combinação com os partidos, de quem eles são a expressão local." (44)

"O grupo armado, portanto, continua exercendo a mesma função, a de garantir pela força o poder pessoal, com uma ampliação agora: a intimidação do eleitorado e a baderna em dia de eleição. Os tumultos eleitorais, de que dão conta os historiadores, atravessam todo o Império e a República, alternando-se apenas com períodos de calmaria relativa quando a fraude e a corrupção (atas falsas, diplomas falsos, etc.) respondem melhor que a violência direta a uma nova restrição ou abertura no direito ao sufrágio." (45)

"Ao nível do município, o mecanismo de poder político-eleitoral era o seguinte: em cada município havia um agrupamento de senhores que encarnavam a 'situação' e outro agrupamento de senhores que constituía a oposição. Nada os distinguia, nem origem de classe nem ideologia: apenas eram aliados de partidos com nomes diferentes. Esse é o quadro que atravessa toda a história eleitoral do Império e da República Velha, pelo menos. Profundamente estático como estrutura, apresenta-se dotado de um dinamismo episódico extraordinário, já que se resolve em turbulência, assassínios, golpes de força, etc" (46)

Uma vez instalado no poder municipal, o grupo dominante só poderia ser retirado pela força ou por intervenção governamental (atuação do Poder Moderador no Império e das 'salvações' durante a República Velha), já que o domínio da máquina eleitoral tendia a perpetuá-lo. (46-7)

'Tudo política, e potentes chefias!': essa a matéria vertente que constitui a vida de Riobaldo, o jagunço. Membro de um grupo armado a serviço de senhores de oposição ao governo no momento, partilha a condição jagunça, potencial de força manipulada por outrem para o exercício do poder. Passível de ser utilizada para o trabalho como para a destruição, para manter a ordem como para ameaçá-la, para impor a lei como para transgredi-la, para vingar ofensas como para praticá-las, as razões que decidem de sua atuação num ou noutro sentido independem de sua escolha. O senhor é quem opta, o jagunço executa. Tudo o que se passa fora da imediatez das tarefas cotidianas, o traçado dos interesses, as linhas-mestras da história, está também fora do alcance de sua consciência. Às indagações de Riobaldo, Jõe Bexiguento responde com seu 'Uai, Nós vive...' ; porque: 'Duro homem jagunço, como ele no cerne era, a ideia dele era curta, não variava.' " (47)

Bibliografia:

GALVÃO, Walnice Nogueira.
      (1972) As formas do falso. Um estudo sobre a ambiguidade no Grande Sertão: Veredas. São Paulo: Editora Perspectiva.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Leituras de Rosa - As formas do falso -Walnice Nogueira Galvão 1972 - parte 4 - Capítulo 3 - A plebe rural

Capítulo 3: A plebe rural

'Quem é pobre, pouco se apega, é um giro-o-giro no vago dos gerais, que nem os pássaros de rios e lagoas.' (GSV) (35)

"A massa da população do meio rural brasileiro congrega, ao longo de nossa história, todos aqueles que não são nem senhores nem escravos." É uma "imensa massa humana excluída do processo produtivo principal, e que vive como pode, aplicada a atividades marginais e esporádicas." (36)

"Seu grande contingente, sua desocupação e disponibilidade foram preocupações constantes para os administradores da colônia e, posteriormente, para os dirigentes do Império e da República, fonte que era de turbulência e desordem, risco para a ordem pública." (36)

"No meio rural, esses desocupados tornam-se geralmente agregados e moradores, isto é, dependentes do (36)
fazendeiro." Estes moradores ou agregados constituem 80% da população do interior. (37)

"A liberdade absoluta desses homens, que deriva da falta de tudo - de propriedade, de tradição, raízes, qualificação profissional, instrumentos de trabalho, direitos e deveres -, tem como corolário a dependência também absoluta. O único meio de sobreviver é colocar-se sob a 'proteção' de um poderoso." Riobaldo e sua mãe havia sido protegidos pela família Jidião Guedes, por exemplo. (37)

"Essa terra em excesso não é, todavia, livre: ela pertence sempre a um proprietário, que tem o direito de permitir que alguém nela more e pratique uma pequena lavoura de subsistência." (...) "o morar 'de favor' em terra alheia traz implícito o compromisso pessoal com o proprietário da terra, haja ou não contrato de trabalho" (37)

"Tais mínimos [vitais e sociais] se expressam em trabalho rudimentar e esporádico, alimentação insuficiente, frouxa trama da organização social, produção cultural quase inexistente. Decorre daí a típica mobilidade do homem pobre do meio rural: os laços que o prendem ao lugar são facilmente rompíveis." (38)

O papel e a posição do homem livre pobre são contraditórios. "encontra sua  subsistência em atividades residuais, para o exercício das quais depende da autorização do dono da terra. O direito de moradia, contrato verbal de pessoa para pessoa, implica na reciprocidade de serviços por parte do morador. Mas a outra ordem de relações, regida pelo interesse, leva frequentemente o fazendeiro a expulsar o morador quando precisa das terras anteriormente cedidas. Sua lealdade, portanto, é alternadamente solicitada e violada. Uma vez expulso, resta-lhe por o pé na estrada e procurar outro senhor." (38)

Seu lugar é precário, por não ser necessário à atividade produtiva básica e central e porque mesmo na pecuária extensiva a pouca necessidade de braços e a facilidade de substituí-los o colocam numa posição de fraqueza. (38-9)

"A área em que se move é a área das relações pessoais e contingentes, seja com seus companheiros de destino, seja com os poderosos dos quais depende: 'jagunço não é muito de conversa continuada nem de amizades estreitas: a bem eles se misturam e desmisturam, de acaso, mas cada um é feito um por si' " (39)

"Destituído de formas organizatórias e institucionais que regulamentem suas relações com os demais homens, os conflitos, por mínimos que sejam, só podem ser resolvidos mediante a violência." Como diz Maria Sylvia de Carvalho Franco: 'Em seu mundo vazio de coisas e falto de regulamentação, a capacidade de preservar a própria pessoa contra qualquer violação aparece como a única maneira de ser: conservar intocada a independência e ter a coragem necessária para defendê-la, são condições de que o caipira não pode abrir mão, sob pena de perder-se. A valentia constitui-se, pois, como valor maior de suas vidas.' (39)

"É isto que o percuciente Riobaldo está expressando, quando diz: 'Em jagunço com jagunço, o poder seco da pessoa é que vale' (39)

Bibliografia:

GALVÃO, Walnice Nogueira.
      (1972) As formas do falso. Um estudo sobre a ambiguidade no Grande Sertão: Veredas. São Paulo: Editora Perspectiva.