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| "Redemoinho", xilogravura de Arlindo Daibert |
Embora alertando para o fato do artificialismo das classificações, Proença chama o estilo de GSV de barroco "resultante expressional de uma carga emotiva muito forte, cuja primeira consequência é o pendor enfático, irrepresável nos limites da linguagem comum. Daí, a busca de novas estruturas formais." (70)
"Esse permanente dinamismo não raro conduz a linguagem à obscuridade, e sempre à assimetria, fazendo-a oscilar entre a altiloquência e o lúdico meramente encantatório." (70)
Quando batizou seu primeiro livro de Saga (radical germânico) + Rana (ou Rã, sufixo tupi), "estava definindo um programa estilístico. Criava o seu vocábulo, sonoro e (71)
claro, sem preocupar-se com o veto gramatical aos hibridismos e proclamava sua adesão a um conceito de liberdade artística: daí por diante, utilizaria o instrumento que melhor transmitisse sua mensagem, sem indagar-lhe a origem ou a idade." (72)
"Dessa liberdade resultam aproximações que causam estranheza - regionalismos vizinhando com latinismos, termos da língua oral e da linguagem castiça entrelaçando-se, contiguidades surpreendentes do português arcaico e de formas recém-nascidas, mal arrancadas do porão das latências idomáticas, a estrita semântica dos termos etimológicos e translações violentas, de impulso metafórico ou não." (72)
Latinismos: p.ex. '... os hermógenes (...) renitiam feito peste', do latim Reniti (depoente): resistir a, forcejar contra; outro: ' Zé Bebelo perequitava, assoviando', do latim Perequitare: Percorrer fileiras a cavalo, andar a cavalo para lá e para cá. (72)
Arcaísmos: um pouco difíceis de se estabelecer porque "muitos regionalismos brasileiros são formas arcaicas ainda viventes", de qualquer forma, p.ex. 'Medeiro Vaz estava ali, num aspeito repartido'; '... sempre bater para o nascente, direitamente em cima de tremedal'; 'Se nanja, sei não';
Além disso, há também formas sintáticas em desuso, que aparecem frequentemente: '... a inocência daquela maldade. A qual que me aluava'; 'Onde que, mas dele livre me vi, gritei, despachado'.
E também palavras de uso corrente empregadas com significação arcaica: 'Mesmo o mais grave sido que restamos sem os burros'; 'Saí alegre do bordel, acinte' (73)
Palavras eruditas: p.ex. 'Não vim socolor de disfarces, com escondidos'; '... atravessamos o córrego, pulando pelas alpondras'
Indianismos: só raramente, mas ocorrem, p.ex.: 'um mato fechado caapuão'; "um caboclo rastejador que viria para tapejar o bando de Joca Ramiro"; jagunços "disfarçados de mbaiá (...) isto é, revestidos com moitas verdes e folhagens'; (74)
Explicações: Tapejar. Na Amazônia existe a forma tupi tapejara, designando os (74)
"conhecedores de caminhos, os guias"; mbaiá "é designação que a si mesmos davam os guiacurus; e era deles o ardil de se disfarçarem com galhos de arbustos durante o combate" (75)
et alii: "Mas não só com a língua portuguesa, o latim e o tupi, Guimarães Rosa se permitiu liberdades de criador. Foi buscar palavras onde quer que correspondessem ao seu desejo de música ou de força expressional. Assim, inventou quirguinchar para o grunhido do tatu, partindo do quíchua quirquincho, ainda hoje usado em vários países da América espanhola para designar esses desdentados. E até o deus babilônico Shamash vem para o grande sertão, onde o sol chamacha. Em ambos os casos, entretanto, a liberdade se apoia em coincidências fonéticas - chama e guincho - disfarçando o pleonasmo sem quebrar-lhe a força." (75)
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Nega que Guimarães Rosa tenha criado uma língua: "O que ocorreu foi a ampla utilização de virtualidades da nossa língua, tendo a analogia, principalmente, fornecido os recursos de que ele se serviu para (75)
construir uma fala capaz de refletir a enorme carga afetiva do seu discurso." (...) "não cabe falar em criação, mas em esforço consciente no sentido de uma evolução da linguagem literária." (76)
"Dada a busca da oralidade, a linguagem de Guimarães Rosa não pode deixar de ser examinada sob esse aspecto. Convém, no entanto, esclarecer que o aproveitamento das peculiaridades orais, no caso, não implica em reprodução documental da linguagem falada. O que existe é estilização dos processos expressivos que a caracterizam e de suas tendências para a intensificação." (78)
"Se, para metodizar, começarmos pelo vocabulário, ressalta desde logo o caráter neologistico; latinismos, sufixações e prefixações inesperadas e os próprios arcaísmos são outros tantos vocábulos novos, ou reanimados - quase diria reencarnados - repostos a viver na frase, não mais com o sentido que lhes dava a língua velha, (78)
mas alterado e adaptado à nova existência." (79)
Em termos sintáticos os processos enfáticos se valem de:
Expletivos [palavras ou expressões não indispensáveis, que servem somente para enfatizar], "Altamente enfático, o estilo de Guimarães Rosa não podia fugir a esse recurso", p.ex.: 'Certo dia se achando trotando por um caminho completo novo, exclamou: - Ei, que as serras estas às vezes até mudam muito de lugar' (79)
Pleonasmo: "É outro recurso enfático das predileções do escritor que dele muito se valeu, quer pela repetição de cognatos, quer pelo repisamento semântico", p.ex. (cognatos): 'E Medeiro Vaz pensava era um pensamento'; '... paredão feito à régua, regulado'; e exs. de repisamento semântico: 'Medo mais? Nenhum algum!'; 'Tanto gabado elogio que não me mudou'; '... catando suas coisinhas para comer alimentação'; e também a mera repetição, reforçada pela pontuação: '... lindas pernas as lindas grossas', 'e eu gostava dele, gostava, gostava' (80)
"Embora menos frequente, mas muito expressiva, a pluralização desnecessária e inusitada aparece como recurso de concretização": '... ser para nós todos campo de fogo e aos perigos de mortes'; 'naquela hora, minhas caras deviam de estar pegando fogo' (81)
Superlativos: aqui anotadas as construções mais raras, evidentemente superlativas, p.ex.: 'o punhal parou diantinho da goela do dito'; 'Cá pensei, silencioso, silenciosinho' (81)
Ordem (das palavras): "a ordem lógica da gramática não é a mesma da linguagem falada. Predominantemente emocional, esta possui a sua lógica, sobretudo afetiva, que arruma as ideias, menos segundo regras objetivas de raciocínio, do que atendendo à importância subjetiva de cada palavra para quem fala." (81)
p.ex. antecipação para valorizar elementos de segunda ordem: '... - lá judiaram com escravos e pessoas, até aos pouquinhos matar'; 'As canoas eram algumas, elas todas compridas, como as de hoje'; '... o Tal não existe; pois é não?' (82)
E há também jogos sonoros: "Os caminhos - ou veredas? - estão balizados pela aliteração mais primitva ou pela coliteração mais sutil, daí passando para a repetição de consonâncias, a partir da tônica e na mesma ordem, verdadeiras rimas em consoantes como perfilha - fartalha, até chegar, em muitos casos, à rima perfeita, quando não aos segmentos metricamente isossilábicos, ao puro jogo inventivo, às onomatopéias."; são métodos da linguagem popular (82)
e "desde Sagarana o uso desses recursos ritmicos é uma constante da sua estilística." (83)
Aliteração, p.ex.: '... estou de range rede'; ... de poleiro pêgo prévio, abrimos nossa calamidade neles'; 'Molhei mão em mel' (83)
Coliterações, p.ex.: '... nas folgas vagas'
Rimas em consonância, p.ex.: 'Estalinho de estrêlas'; 'Pelo pulo fino'; 'Sungar segrêdo'; 'Escapulido, calado' (83)
Rimas toantes, p.ex.: 'Tem coisa e cousa, e o ó da rapôsa'; 'Fumacinha é do lado - do delicado'; 'Amigo era o braço, e o aço!' (84)
Ritmo tônico, p.ex.: 'Rincha-mãe, Sangue-d'Outro, o Muitos-Beiços, o Rasga-em-Baixo, Faca-Fria, o Fancho-Bode, um Treciziano, o Azinhavre' (84)
"Como se vê, nem sempre os exemplos são puros; acumulam-se num mesmo trecho vários recursos rítmicos, reforçando, às vezes até a pura música, a tendência lúdica da prosa." (84)
Onomatopéias, p.ex.: 'um couro (...) por resguardar a pessoa do rumo donde vem o vento - o bafe-bafe'; '... o xaxaxo de alpercatas'; '... o plequeio das alpercatas' (84)
"Como puro jogo sonoro associativo, cabem alguns exemplos:
'... verde que afina e esveste, belimbeleza'; '... o bambalango das águas'; 'Era o manuelzinho-da-croa, sempre em casal (...) às vezes davam beijos de biquinquim' (85)
"Para manter em permanente vigília a atenção de quem lê, todos esses vocábulos de som e forma inusitados funcionam como guizos, como coisas que se movem, criando, não raro, dificuldades à compreensão imediata do texto e, de outras vezes, explicando além do necessário. Mas, vencido o primeiro movimento de resistência - esse existe até, e principalmente, em leitores letrados - a sensação do novo, do recomposto, do revificado se impõe e Guimarães Rosa toma conta, quase leva a desejar que a língua seja sempre assim, criadora e liberta de toda peia." (85)
"Mas - convém repetir e explicar melhor - ele não usou um sistema arbitrário, nem de hermetismos intencionais; apenas exagerou tendências da linguagem regional, quer sintáticas, quer expressionais, explorando as virtualidades da língua" (85)
Nos idiomas vivos o sentido etimológico dos vocábulos vai empobrecendo com o tempo. "Guimarães Rosa não faz outra coisa senão apelar para a consciência etimológica do leitor, neologizando vocábulos comuns, reavivando-lhes o significado (...) dando-lhes uma precisão que esse mesmo uso acabou por destruir." p.ex. : 'Agora, a forca, eu vi - (...) arvorada bem erguida no elevado'; 'Leôncio Du, que tinha afastado todo o mundo e meneava um facãozinho' (86)
E às vezes faz o inverso, surpreendendo ao obliterar o sentido etimológico de palavras: 'Mas, se a gente der condena de absolvido, soltar esse homem'; '... o senhor não padeceu feliz comigo?' (86)
Também emprega inesperadamente um sufixo, revalorizando "o radical que o uso contínuo tornou irrelevante: '... lisas pedras soltadas, no ribeirão lajeal'; 'Diadorim - o nome perpetual'"; (87)
Em outros casos, "transfigura o vocábulo, agregando sufixo a um radical transformado: 'Como é que eu vou dar letral (literal) os lados do lugar...'; - ou, inversamente, anula o sufixo, alterando-o: 'Visivo (visível) só vi Diadorim'" (87)
"Derivações imprevistas ou lúdicas comparecem na estilística de Guimarães Rosa, surpreendendo e prendendo a atenção do leitor: '... os finos ventos maiozinhos'; '- Tinha de vir, demorão ou jàjão'; '... ela era uma bobinhã'; '... o cheiro do musguz das árvores'
Prefixação
"Do mesmo modo que a sufixação, a prefixação inusitada traz vitalidade ao radical e à partícula afixada" (...) "Basta exemplificar com o sufixo oso, remoçado e surpreendente no corposo sofrimento dos cavalos de Grande Sertão: Veredas, ou com o prefixo per, tão expressivo no pervoar de Guimarães Rosa, quanto embotado em perfeito ou permanecer." (87)
"A prefixação, tal como Guimarães Rosa a usou, é, seguramente, um recurso criador de densidade semântica. De outras vezes, recurso de síntese. Ou, ainda, (87)
recurso sonoro, quase onomatopaico, como poderemos exemplificar com o vocábulo sonoite, em que nos parece encontrar a sugestão de sono e de todos aqueles barulhinhos da noite no mato, daquela noite tão vivamente descrita em que a chuva, o vento, o rio acompanham a agonia de Medeiro Vaz." (88)
A prefixação é um dos recursos mais utilizados por Guimarães Rosa, com diferentes efeitos:
[i] "vocábulos prefixados sem intenção precisa (...) em que a prefixação, embora revitalizando a palavra, não lhe altera o sentido e aqueles em que vale cmo processo de síntese: '... estava perdido, deerrado de rota...'; 'E chuva alta que envinha, estava mandando urubu para casa'; 'agora sochupei aquele vapor fresco'; '... batatas e mandiocas, sempre quentes no soborralho' (88)
[ii] "vocábulos em que a prefixação atua como força intensificadora do sentido", com predominância para os prefixos re e des, mas utilizados com sentido diferente do normal: "o re, habitualmente empregado como indicativo de repetição, aparece como simples ação intensificadora, assim como o des, que na linguagem comum apenas exprime ação contrária à do radical" (88)
p.ex.: 'Era o manuelzinho-da-c'rôa sempre em casal, (...) desempinadinhos (muito empinados), peitudos'; 'Manhãzando, ali estava re-cheio (muito cheio) em instância de pássaros'; '... relimpar (limpar bem) o mundo da jagunçada braba' (89)
Aglutinação, "é outro recurso" (...) "a agregação de dois radicais, criando uma soldadura de significados pluralizados: '... na brumalva daquele falecido amanhecer'; 'O fechabrir de olhos' (89)
Justaposição, "empregada como recurso de economia verbal, às vezes com intenção onomatopaica, às vezes combinada com outros processos de intensificação semântica: 'jagunço é no quem-com-quem'; 'Sol-se-pôr, saímos e tocamos dali' (89)
Emprego do particípio presente em substituição às orações de pronome relativo (para enfatizar): '... se abraçavam com os animais caintes (que caíam)' (89)
Uso do particípio passado pelo gerúndio (com o mesmo fim): '... percebi que, de me ver tremido (tremendo) todo assim, o menino tirava aumento para sua coragem'; (...) '... mosquitinhos chupadores, donos da vazante, uns mosquitinhos dançadinhos (que dançam), tantos de se desesperar' (90)
"A formação de verbos a partir de nomes, processo enfático da linguagem popular e também da infantil", é técnica de economia formal, agrega densidade semântica e "oferece imensas possibilidades neologísticas": '... buritizal, que lequelequeia' (90)
Substantivação ou verbalização de sintagmas, p.ex. : '... Diadorim se maisfez, avançando passo'; 'Assim-assei, naquela influição'; '... o homem foi se avontadeando, encompridando as respostas' (90)
Verbos reanimados por prefixos fortes, ou sufixos significantes, p.ex.: 'Daí, trasla um duro chão rosado'; 'A vida é ingrata no macio de si: mas transtraz a esperança'; '... fiquei sonhejando' (91)
Formas inesperadas aparecem verbalizadas, com acento lúdico, p.ex.: 'O Hermógenes, com seu pessoal dele - que nem em curvas colombinhando, rastejassem...'; 'Agora esse (o demo) se prespiritava por lá, sabível mas invisível'; 'Coração vige feito riacho colominhando por entre serras...' (de colomi, curumim) (91)
Substantivização, recurso enfático, pela plasticidade que transmite aos vocábulos, p.ex.: '... para ele um vice-versa de tristeza'; '... fomos rondar os caminhos de porventura dos bebelos'; 'Careço de três homens bons, no próximo de meu cochicho' (91)
Expressões substantivadas, p.ex.: 'No entre o Condado e a Lontra, se foi a fogo' (91)
Também com propósito neologístico, a deformação ou estruturação de locuções adverbiais, p.ex.: '... se ouvia o corrute dos animais, que pastavam à bruta no capim alto'; 'Assim, à parva, às tantices, essa mocinha Miosótis também tinha sido minha namorada' (91)
O rejuvenescimento, quer de conteúdo, quer de forma, de lugares-comuns e clichês estereotípicos, p.ex.: (91)
'... deviam de estar agora desqueleixados (de queixo caído), no escuro'; 'No mais, nem mortalma (viva alma); '... falou, numa voz rachada em duas' (de taquara rachada) (92)
Toponímicos
Aqui Guimarães Rosa deve ter utilizado alguns que colheu na região e outros que inventou, mas seguindo uma tendência já existente de denominações nascidas ao acaso e que já haviam sido assinaladas por viajantes como Saint-Hilaire, que na sua Viagem às Nascentes do São Francisco, encontrou Vertentes do Jacaré, São (93)
Miguel e Almas, Registro dos Arrependidos, Porto do Quebra Anzol, Braço do Veríssimo, Porco Morto." (94)
"No São Francisco há um arraial do Bem-Bom. Contaram-me que esse nome de batismo foi dado pelos fugitivos de uma enchente que ali puderam atracar as canoas em lugar mais alto, bem bom para quem não achava onde aportar." (94)
"Viajando na mesma região, Martius anotou que muitas vezes os nomes dos lugares eternizaram o estado de espírito em que se achavam, ao descobri-los, os primeiros ocupantes: Bonfim, Bemposta, Sem-Dentes, Foge-Homem, Arrependido." (94)
Assim G.Rosa "apenas multiplicou os termos geográficos, seguindo as normas que o povo usa para batizar terras e águas" aon inventar: o Buriti-do-A, o Ôlho-Água-das-Outras, a Vereda-da-Vaca-Mansa-de-Santa-Rita, o Curralinho, o Poço Triste (94)
"E Riobaldo conta um desses batismos: 'Descemos a Vereda-do-Porco-Espim, que não tinha nome verdadeiro anterior,e, assim chamamos, porque um bicho daqueles por lá cruzou'." (94)
[FIM DO RESUMO DO LIVRO DE Manuel Cavalcanti Proença]
(Continua, se os deuses forem bons :-) )
Bibliografia:
PROENÇA, Manuel Cavalcanti. (1958) Trilhas no Grande sertão. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional.

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