Introdução
"Ao fim do conjunto de leituras que fiz, restou como saldo um só problema. Ao Grande Sertão: Veredas se podem aplicar as palavras de Riobaldo, quando diz que (11)
'tudo é e não é': o problema que me ficou nas mãos foi o da ambiguidade; e com ele como operador parti para a minha leitura. Queria descobrir onde radica a ambiguidade e como ela está construída, ou seja, em que níveis da composição literária se detecta essa ambiguidade instauradora." (12)
Faz uma divisão entre a "matéria historicamente dada" e a "matéria imaginária". (12)
"Quanto à matéria historicamente dada, é ela a matéria do sertão, com o homem pobre do meio rural brasileiro, seu estilo de vida, sua maneira de enfrentar o mundo, o sistema de dominação vigente, a violência que o garante. É privilegiado no romance um dos aspectos desse meio, qual seja o cangaço, com o jagunço como figura central. O romance mostra como a condição do sertanejo pobre é radicalmente ambígua, como sua dispensabilidade redunda em dependência, sua liberdade em submissão; isto se passa, todavia, fora de sua consciência. É Riobaldo, narrador-personagem que, tendo uma vida dividida em duas partes - como membro da plebe rural quando menino e quando jagunço, como membro da camada dominante quando jovem e quando velho - tem distância crítica para perceber a ambiguidade da condição do pobre, pacífico ou guerreiro, conforme sirva aos interesses de quem manda." (12)
"A composição do romance repousa na seleção de um monólogo que introduz, ao nível da narração, uma dupla perspectiva, que é a do narrador-personagem. Este se move entre dois polos, narrando o vivido ou vivendo o narrado, conforme seja naquele passo predominantemente narrador ou personagem, sendo sempre ambos. São essenciais para o narrador-personagem duas defi- (12)
nições de si mesmo, que são as duas linhas de seu destino: a que fez dele um letrado irrealizado e a que o tornou um jagunço. Como letrado é que tenta a empreita de transpor seu passado em texto, um passado de jagunço, em que o letrado se frustrou. É assim que o texto se constrói ao mesmo tempo como narração e como reflexão sobre o que é o texto." (13)
"A ambiguidade, princípio organizador deste romance, atravessa todos os seus níveis; tudo se passa como se ora fosse ora não fosse, as coisas às vezes são e às vezes não são. Como, todavia, esses pares não chegam a constituir-se em opostos, antes vivenciando o sujeito alternadamente sem que a tensão entre eles engendre o novo, não se pode falar em contradição mas apenas em ambiguidade. Riobaldo, fonte do texto, no presente da narração reocupou seu lugar na ordem, tão fazendeiro quanto fora seu pai, e com seu próprio grupo de moradores fiéis garantindo suas divisas." (13)
"Se o princípio organizador é a ambiguidade, a estrutura do romance é também definida por um padrão dual recorrente. A coisa dentro da outra, como a batizei, é um padrão que comporta dois elementos de natureza diversa, sendo um o continente e o outro o contéudo. A chave para a descoberta desse padrão é um conto que se encontra no meio do romance, aparentemente como peça solta, mas na verdade como matriz estrutural. Esse conto, que relata o duplo crime de Maria Mutema, estabelece o padrão que se repete em todos os níveis de composição do romance, constituindo sua estrutura: no enredo, nas personagens, nas imagens, na concepção metafísica, nos comentários marginais. Nas linhas mais gerais tem-se o conto no meio do romance, assim como o diálogo dentro do monólogo, a personagem dentro do narrador, o letrado dentro do jagunço, a mulher dentro do homem, o Diabo dentro de Deus." (13)
"De todas as ambiguidades que vincam este livro, não se pode esquecer daquela que é, ao nível da prática, a raiz das demais, e que é a posição do escritor. Posição sumamente ambígua, que se revela na linguagem e através dela. Pois, neste discurso oral que é escrito, sertanejo ao mesmo tempo que erudito, lúcido enquanto apanha o (13)
processo histórico e mitologizante quando o feudaliza, identificado ao homem pobre do sertão e dele distanciado, com uma concepção metafísica veiculada pelo espiritismo mas que tem a sofisticação do budismo e das ideias de Heráclito, que proclama sua fé na vida mas que faz do texto um fetiche, que apreende as tensões da realidade como ambiguidades sem radicalizá-las em contradições, é, afinal, a posição do intelectual brasileiro que se delineia. Preso a seus privilégios mas sendo capaz, por treino, de experimentar imaginariamente outras situações de vida, convive no mundo dos valores, mas é tradicionalmente servidor do Estado; aqui existe e aqui produz, mas de olho na última moda das agências centrais da cultura. Ninguém ainda nos mostrou nosso retrato tão impiedosamente, mesmo através de tantas mediações, e talvez sem o saber, como Guimarães Rosa no Grande Sertão: Veredas. Nas páginas desse livro perpassa a sombra do letrado brasileiro." (14)
Bibliografia:
GALVÃO, Walnice Nogueira.
(1972) As formas do falso. Um estudo sobre a ambiguidade no Grande Sertão: Veredas. São Paulo: Editora Perspectiva.

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